A importância da atividade física para o desenvolvimento infantil

1. Introdução

Nosso corpo deve ser pensado como uma experiência vinculada à inteligência, ao desenvolvimento pleno do ser humano. O bem estar físico é essencial para o nosso crescimento, principalmente para as crianças, que estão em fase de estabelecer registros corporais, psicológicos e motores.

O objetivo do nosso post de hoje é apresentar a importância da atividade física para o desenvolvimento infantil. Para tanto, é necessário explicar a necessidade de se incentivar a criança a praticar atividades físicas, quais doenças podem ser prevenidas com esse tipo de ação e quais as atividades adequadas para cada etapa do crescimento.

É importante, ainda, ressaltar como é necessário o aprendizado de jogos, esportes e brincadeiras para o desenvolvimento de certos aspectos físicos, motores e psicológicos na criança, bem como para estimular a cooperação entre colegas por meio de uma atividade em grupo. Por fim, falaremos da importância da participação ativa dos pais nesse processo de aprendizado físico, como forma de tornar a experiência mais prazerosa para a criança.

2. A importância da atividade física

A prática da atividade física deve ser estimulada em pessoas de qualquer idade, pois tem impactos benéficos ao desenvolvimento biológico e psicológico, para o autoconhecimento corporal e mental, e para a criação de habilidades que seriam desconhecidas sem a prática.

Diversas são as possibilidades de atividades físicas, e elas estimulam a coordenação, o equilíbrio, a harmonia, a concentração, a força, a agilidade, a disciplina e muitas outras habilidades. Em suma, cria um estilo de vida saudável e ativo, que proporciona lazer e bem-estar.

Para o desenvolvimento infantil, a atividade física traz muitos benefícios, tais como:

Conhecimento e domínio do próprio corpo, por meio do movimento, o que auxilia o desenvolvimento motor em cada fase da infância;
Desenvolvimento da inteligência, uma vez que a atividade estimula os neurônios;
Incentivo à socialização e relações com o outro, principalmente nas atividades em grupo;
Desenvolvimento de valores, atitudes colaborativas e comportamentos saudáveis;
Criação de hábitos positivos para cuidar do corpo e da mente, ainda que na criança isso seja involuntário e inconsciente;
Auxílio no desenvolvimento da autonomia, na autoconfiança, na formação do caráter e na autoestima;
Melhoria na qualidade de vida e no bem-estar da criança, o que possibilita melhor integração na vida em sociedade.
Estudos ao redor do mundo mostram que o corpo, principalmente durante o desenvolvimento infantil, assume um papel fundamental de expressão e de vinculação da criança com o mundo, estando conectado à inteligência e, portanto, indo além de atuar como mera forma mecânica de movimento. Em outras palavras, o corpo é o principal instrumento de comunicação com o mundo, a capacidade expressiva da criança na vida. Pensando nessa expressão, o desenvolvimento infantil sem a atividade física se torna muito prejudicado. Daí a necessidade de os pais se engajarem para fomentar essa prática, dentro e fora da escola.

Nas instituições de educação, pelo menos do Brasil, a disciplina de Educação Física é obrigatória. É um trabalho que influencia muito fortemente na alfabetização infantil, uma vez que, nas séries iniciais da educação formal, o aluno desenvolverá habilidades corporais e terá estimulado seu senso crítico e sua visão de mundo. Além disso, a prática da atividade física promove a reflexão sobre situações e problemas reais, por ser, muitas vezes, vista como um trabalho de equipe.

Em vista de todos esses benefícios e valores aprendidos, aumentam as chances da criança de crescer com qualidade de vida e promover seu bem-estar, tornando-se um adulto física e psicologicamente saudável.

3. Quatro doenças infantis que podem ser prevenidas pela prática constante

O estímulo precoce à prática constante de atividade física promove a saúde e previne doenças, e por isso, é uma questão de saúde pública. No Brasil, conforme pesquisa feita pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística) em 2015, 46% da população (67,2 milhões de pessoas) com 18 anos ou mais sofriam com o sedentarismo. Uma das causas desse dado preocupante é, certamente, a falta de uma cultura que promova hábitos saudáveis desde a infância, por meio da alimentação balanceada e da prática de atividade física.

Uma criança estimulada a praticar esportes, jogos e brincadeiras aprende a reconhecer a importância e reflexos dessas práticas em seu próprio bem-estar e qualidade de vida. Assim, o combate ao sedentarismo se torna um estilo de vida, algo natural. É infinitamente mais fácil incutir o hábito saudável em uma criança do que mudar hábitos e atitudes já estabelecidos em um adulto.

Com a prática constante, são evitáveis muitas doenças cardiovasculares, a obesidade, a hipertensão, o diabetes e algumas doenças do aparelho respiratório, ao estimular a expansão torácica.

Para Raffael Fraga, especialista do Núcleo de Cardiologia do Hospital Samaritano de São Paulo, “as atividades aeróbicas, além de promoverem melhora da aptidão física, trazem inúmeros benefícios para a saúde de quem pratica regularmente: reduz o risco de morte prematura, morte por doenças cardíacas, derrame cerebral; reduz o risco de desenvolver diabetes e hipertensão arterial; auxilia na redução da pressão arterial e no controle do peso; reduz as sensações de depressão e ansiedade e promove bem-estar psicológico”.

Doenças cardiovasculares

A atividade física regular melhora a condição cardiovascular de quem a pratica, pois fortalece os músculos cardíacos, diminuindo os fatores de risco para infarto do miocárdio e derrame. A prática também reduz o estresse e a ansiedade, o que, em combinação com uma dieta saudável, promove uma considerável redução de incidência de doenças cardiovasculares.

E se a criança já apresentar um problema cardíaco? Estudos recentes do Colégio Americano de Medicina Esportiva comprovam que até mesmo os portadores de doenças cardíacas podem ser tratados com um programa de atividade física específica para sua condição.

Obesidade

A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República divulgou dados alarmantes a respeito da obesidade infantil. Temos hoje, no Brasil, um percentual de 33,5% de crianças entre 5 e 9 anos de idade com excesso de peso. Na adolescência, esse percentual é de 20,5%.

A nutricionista Sueli Rosa Gama, do Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, vinculado à Ensp/Fiocruz, pesquisou o sobrepeso infantil e concluiu que ele ocorre devido ao sedentarismo e à “alimentação baseada em produtos ultraprocessados, com alta quantidade de açúcar, sal e gorduras saturadas, responsáveis no mundo todo pela epidemia de obesidade”. Ela também criticou o uso abusivo de tablets, celulares, computadores, televisões e videogames, que contribuem para o sedentarismo.

Diabetes e hipertensão

Frequentemente relacionados ao sedentarismo e à obesidade, o diabetes e a hipertensão são combatidos pela atividade física. O exercício colabora para a redução dos níveis de pressão arterial e glicose, melhora o controle do peso e o perfil de colesterol, já que aumenta o nível de colesterol bom (HDL) e diminui o nível do ruim (LDL).

No Brasil, a hipertensão acomete 70% da população economicamente ativa, mas as crianças não estão de fora da estatística. Estima-se que entre 5% a 10% da população com até 18 anos (7 milhões de crianças e adolescentes) são hipertensos, e as causas, nessa faixa etária, estão associadas ao sedentarismo e à obesidade.

E como a atividade física combate essas doenças? Se feita de forma regular, ela promove o gasto de calorias (diminuindo o percentual de gordura), aumenta a capacidade aeróbica, estimula os sistemas neurológico, psicológico e motor, desenvolve os músculos e causa aquela sensação gostosa de satisfação, devido à liberação do hormônio endorfina, o que aumenta a disposição e a autoestima.

Aqui cabe uma observação importante: a prática de atividades e exercícios físicos deve ser sempre prazerosa para a criança, respeitando as fases de desenvolvimento, para que ela não se sinta cobrada em excesso, o que pode afastá-la da prática ao longo da vida. Um exemplo simples: uma criança de 6 anos preza pelas atividades lúdicas, que são fontes de diversão, mas uma criança de 12 anos já começa a despertar interesse pelas atividades competitivas. Vamos falar mais sobre isso?

4. Quais tipos de atividades são recomendadas para cada idade?

As atividades físicas devem acompanhar as fases de desenvolvimento infantil. Em cada etapa, é preciso atentar para a maturidade física, motora e psicológica da criança, para o nível de descobrimento que ela já atingiu e que nível ela poderá atingir naquela determinada idade. São diferentes fases para descobrimento e crescimento pessoal.

A fase de conhecimento, que é da criança até 1 ano de idade, tem atividades muito limitadas. Porém, a exercitação física do bebê é sua própria rotina, na qual ele vai, gradativamente, procurar as melhores posições para dormir, para visualizar objetos ou as próprias mãos, assentar, tentar ajoelhar, engatinhar e levantar. Os cuidadores devem sempre estimular a criança com objetos chamativos e, a partir dos 6 meses, incentivar o contato maior com a água, que desperta outras sensações motoras.

Entre 1 e 6 anos, temos o desenvolvimento neuropsicomotor, em que a criança já é capaz de andar, correr, pular, agachar, segurar e arremessar objetos e, gradativamente, participar de brincadeiras em grupos, mergulhar, chutar bola. Nessa fase, a criança explora o espaço e o meio ambiente, e começa a ganhar autonomia em suas atividades. Suas habilidades, em geral, seguem um padrão de ocorrência, mas as atividades ainda não são sistematizadas, ou seja, não têm horários determinados e nem rotinas.

O primeiro contato com os esportes acontecem nessa fase, mas é importante ressaltar que ele não deve ter caráter competitivo, e sim lúdico, com uma brincadeira associada. Corrida, bicicleta, atividades em grupo, natação (adaptação ao meio aquático) podem ser boas opções para essa idade.

Na fase de crescimento, entre 6 e 12 anos, a criança entra na idade escolar, que é o melhor período para incutir o estilo de vida mais ativo e para desenvolver a aptidão física, o que contribui inclusive para melhor desempenho acadêmico. Nessa fase, torna-se possível estabelecer uma rotina de atividades, uma vez que todos os atos motores já são dominados. A criança pode escolher uma atividade que goste mais, e os pais devem incentivar a prática de diversos exercícios, em grupo ou solo, para que a criança explore suas aptidões.

Nessa fase, é interessante incentivar as atividades também fora da escola. Os pais podem sugerir uma escola de esportes (futebol, vôlei, natação, dança, basquete, handebol, ginástica etc.) para que a criança tenha contato com o maior número possível de modalidades para que ela explore suas habilidades. Há alguns clubes que oferecem, inclusive, aulas de introdução à atividade física, em que a criança passa por várias modalidades e depois escolhe a que preferir.

A partir dos 12 anos, entra a fase de desenvolvimento. O pré-adolescente já tem maior noção de qual modalidade seguir e “encarna” um espírito competitivo, além do interesse de cuidar do próprio corpo, o que desperta para atividades como a musculação. Nessa idade, ele já é capaz de decidir se prefere atividade para sua recreação ou para competição.

Nessa fase, caso escolha a competição, que exige uma rotina de treinos mais pesada, os pais devem prestar especial atenção: a pressão emocional pode atrapalhar o desenvolvimento psíquico do adolescente. Além disso, o excesso de atividade física pode ocasionar lesões e desenvolvimento anormal de músculos, atrapalhando o crescimento natural.

Em suma, as atividades físicas para o desenvolvimento infantil são destinadas à recreação e educação, vistas como fontes de alegria e prazer. Na medida em que a criança vai chegando à pré-adolescência, há um despertamento próprio, que pode direcionar também para a competição. Em todo caso, a escolha é sempre da criança, pois isso será um estímulo a continuar com a prática da atividade por toda a vida, contribuindo para sua saúde a longo prazo.

5. Aprendendo a trabalhar em grupo

A criança utiliza o movimento como forma de expressão, conforme falamos acima. Essa atividade é sua forma de interação com outras crianças e com o meio ambiente, o que possibilita aprender a explorar o mundo e estabelecer novas relações. É também por meio dessa linguagem corporal que ela começa a construir sua cultura e sua identidade, e um dos motivos mais expressivos se dá pelo aprendizado do trabalho em grupo.

Por meio de atividades lúdicas e criativas que permitem a interação com o outro, a criança assimila valores importantes que definirão seu caráter, baseados nas seguintes situações exemplificadas abaixo:

Respeitar o espaço do outro;
Ouvir a opinião do outro;
Lidar com os problemas e resolvê-los;
Aumentar a autocrítica;
Construir coletivamente;
Trocar experiências com o outro;
Aprender a argumentar, dividir funções e tomar decisões.
Tomemos como exemplo uma partida de futebol. Veja as situações que acontecem em um jogo: cada jogador tem uma função determinada, o jogo só é possível se feito coletivamente, em cada jogada deve-se tomar uma decisão, cada erro é lamentado e incentiva a busca por superação, existe um técnico para orientar os jogadores. Viu como são muitas as experiências adquiridas com o trabalho em grupo?

Presença dos pais

Os pais têm papel importantíssimo no trabalho em grupo. Como a criança não pratica atividades apenas na escola, os pais devem se fazer presentes na hora dos jogos e esportes, dando apoio à criança e ensinando o que for preciso. Uma forma excelente de fazer isso é criar o hábito de se exercitarem juntos, seja em casa ou em praças, parques ou áreas de lazer.

As crianças tendem a ver nos pais um verdadeiro time, o que estimula nela todos os valores que podem ser aprendidos com as situações listadas acima. O mero apoio dos pais à criança que está aprendendo a andar de bicicleta desperta nela a sensação de poder confiar naquele suporte, compartilhando a vitória!

6. Jogos e esportes

Os jogos, as brincadeiras e os esportes são as formas mais comuns e difundidas de atividades físicas que contribuem para o desenvolvimento infantil. Como fator comum, eles aumentam a capacidade da criança de interagir e de se comunicar, propiciam o desenvolvimento motor e psíquico e estimulam o processo de socialização.

Os jogos e as brincadeiras muitas vezes são processos extremamente criativos, uma vez que podem ser criados sem regras pré-definidas, algo que não acontece com os esportes, por já contarem com regras estipuladas previamente. Quando uma criança se propõe a jogar, ela trabalha o significado de suas ações, seu processo criativo e sua capacidade de pensamento. Nesse estímulo à imaginação, é importante ter a participação dos pais ou do professor para estimular o conhecimento, as habilidades e as relações sociais, sempre respeitando o estágio de desenvolvimento infantil em que a criança se encontra.

Já nos esportes, o respeito às regras e à participação do outro promove na criança um sentimento de pertencer a um grupo, principalmente nos esportes coletivos, que dependem da mútua colaboração para o sucesso. O trabalho em equipe é um grande promotor da integração social, da confiança, dos valores éticos e morais, do respeito às diferenças e da valorização das qualidades do outro.

Independentemente de ser jogo, brincadeira ou esporte, quando há o estímulo correto, a criança é capaz de desenvolver, de forma mais acelerada, suas capacidades físicas, cognitivas e afetivas.

7. Buscando o ideal para sua criança

O ideal é sempre aquilo que a criança gosta de fazer. Qualquer atividade física que seja imposta, seja pela obrigatoriedade na escola, seja por desejo pessoal dos pais (alguns pais querem ver seus filhos sendo atletas profissionais a qualquer custo!), tende a afastar a criança do hábito saudável da prática constante.

A atividade deve sempre ser tratada como brinquedo e diversão, o que aumenta as chances da criança manter esse hábito ao longo da vida, uma vez que ela o associa ao lazer e ao prazer. Os pais devem propor atividades diferentes, que vão desde brincadeiras como amarelinha, queimada, pular corda, dançar e correr, até esportes como natação, futebol, vôlei etc. E aí vai uma dica: se a criança quer que os pais façam parte da brincadeira, entre de cabeça! Isso é importante para conhecer as competências e habilidades desenvolvidas na presença dos seus mentores.

E não custa lembrar que as atividades físicas não têm gênero definido: qualquer criança pode escolher dançar ou jogar futebol, praticar ginástica olímpica ou lutar judô. O que realmente importa é o benefício que o exercício traz para a saúde física e mental.

8. Desenvolvimento físico, psicológico e motor

A atividade física promove o desenvolvimento sob vários aspectos. Falamos dos benefícios que o exercício traz, principalmente para corpo e mente. Fisicamente, a prevenção de doenças crônicas ligadas ao sedentarismo e o crescimento saudável do corpo físico são os maiores ganhos que um indivíduo pode ter com a prática de exercícios. Eles ainda promovem o ganho de força, a resistência, a flexibilidade, o controle muscular, o equilíbrio orgânico e a saúde dos ossos, além de estimular a coordenação motora.

O desenvolvimento motor da criança é promovido por meio da sua integração e da sua descoberta e compreensão do seu corpo no espaço. Ao longo dos anos, ela vai aperfeiçoando seus movimentos, e as brincadeiras, jogos e esportes contribuem para uma evolução consciente dessa forma de expressão. Por isso, adquire maior domínio corporal, consegue diferenciar e identificar as partes do corpo utilizadas no movimento, adquire melhor noção de espaço e tempo, e aumenta seu desempenho em atividades gerais e corriqueiras.

A descoberta de novas habilidades e competências estimula a superação de limites, o que influi diretamente no desenvolvimento psicológico infantil. A prática das atividades melhoram a autoestima, a autoconfiança, a expressividade, as capacidades criativas e de pensamento, a cooperação social, a integração e muitos outros aspectos positivos que influem na saúde psíquica da criança.

9. Conclusão

Não restam dúvidas sobre a importância da atividade física para o desenvolvimento infantil, certo? Além de contribuir para o crescimento saudável do corpo e da mente, a prática de exercícios físicos ainda previne doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão e obesidade, além de cultivar valores que moldarão o caráter. E isso tudo com um leque de opções extenso, que passa pelos jogos, pelas brincadeiras e pelas práticas esportivas, e que fica muito mais prazeroso com o estímulo à atividade em grupo, seja na presença dos pais ou de colegas.

É ainda importante lembrar que a atividade física, sozinha, não faz milagres. O cuidado com o corpo é um dos fatores que contribuem para o desenvolvimento pleno da criança, mas de nada adiantará se exercitar, se o pequeno come alimentos industrializados, se rejeita verduras, legumes e frutas ou se toma refrigerante todos os dias!

Saiba mais sobre uma alimentação balanceada para crianças!

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